O climatério é um período de intensa transição fisiológica que corresponde à transição entre a fase reprodutiva e não reprodutiva da mulher, ocorrendo habitualmente entre os 40 e 65 anos de idade. Com a redução progressiva da função ovariana e a queda drástica nos níveis de estrogênio, o organismo feminino passa por profundas alterações metabólicas, endócrinas e na composição corporal.
Diante desse cenário de vulnerabilidade para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, osteoporose, declínio cognitivo e distúrbios de humor, o papel da intervenção nutricional torna-se uma ferramenta de primeira linha na prática clínica. Para que o profissional atue de forma baseada em evidências, é fundamental compreender a relevância dos nutrientes essenciais no climatério para elaborar condutas individualizadas que mitiguem os sintomas e restaurem a homeostase celular.
O Impacto Fisiológico do Climatério e a Saúde da Mulher
Durante a transição menopáusica, o declínio do estradiol afeta diretamente múltiplos tecidos do corpo feminino. O estrogênio exerce um papel cardioprotetor crucial ao estimular a síntese de óxido nítrico pelas células endoteliais, promovendo a vasodilatação. A perda desse hormônio acelera o envelhecimento vascular, gerando disfunção endotelial, e altera o perfil lipídico, resultando no aumento do colesterol total, LDL-c e triglicerídeos.
Simultaneamente, ocorre uma mudança na distribuição da gordura corporal, com aumento do acúmulo de adiposidade central (forma androide) e perda de massa livre de gordura. Essa mudança corporal contribui para o estresse oxidativo e para a inflamação sistêmica.
O papel dos Nutrientes e Compostos Bioativos no Climatério
A prescrição dietética e a suplementação devem ser guiadas pelas necessidades micronutricionais, que permanecem elevadas mesmo com a redução das necessidades energéticas decorrente do envelhecimento. Os principais nutrientes fundamentais para essa fase e suas repercussões clínicas, são:
Vitaminas do Complexo B (B6 e B12)
As vitaminas B6 e B12 atuam diretamente no metabolismo da homocisteína. A deficiência desses micronutrientes resulta em hiperhomocisteinemia, um importante fator de risco independente para aterosclerose, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e disfunções cognitivas como a doença de Alzheimer. Além disso:
- Vitamina B6:
Essencial para a síntese de neurotransmissores como serotonina e dopamina, desempenha papel crucial na regulação do humor e prevenção de sintomas depressivos frequentes na transição menopáusica.
- Vitamina B12:
A deficiência crônica correlaciona-se com a perda de densidade mineral óssea, fadiga, anemia e sintomas neuropáticos, como formigamento nas extremidades e problemas de coordenação motora e cognitiva.
Vitamina D e Cálcio:
A menopausa é considerada o maior fator de risco para o desenvolvimento de osteoporose devido ao remodelamento ósseo negativo. A vitamina D (especialmente na forma de vitamina D3) é vital para manter as concentrações séricas de cálcio e fósforo, otimizando a absorção intestinal de cálcio e a mineralização esquelética. Além disso, baixos níveis de vitamina D estão ligados a síndrome metabólica, alterações no perfil lipídico e maior risco de eventos cardiovasculares.
Ferro:
Após a menopausa, a recomendação de ferro diminui para 8 mg/dia, em razão da interrupção das perdas menstruais. A suplementação não deve ser realizada rotineiramente e deve ser considerada apenas quando houver indicação clínica e/ou laboratorial de deficiência.
Magnésio:
O magnésio é um cofator enzimático essencial. Pesquisas recentes demonstram que os níveis plasmáticos de magnésio possuem associação positiva direta com a atividade da enzima antioxidante glutationa peroxidase (GPx). A hipomagnesemia está associada ao aumento do estresse oxidativo, dislipidemia e prejuízos no metabolismo da glicose.
Ácidos Graxos Ômega-3:
Com reconhecidas propriedades anti-inflamatórias, cardioprotetoras e de melhora na sensibilidade à insulina, os ácidos graxos ômega-3 são indispensáveis no climatério. No tecido ósseo, eles atuam suprimindo a reabsorção óssea (via redução de prostaglandina E2 e RANKL). Na saúde cerebral, a ingestão adequada de ômega-3 está associada à melhora do desempenho cognitivo e à redução de sintomas depressivos.
Licopeno:
Pertencente à família dos carotenoides, o licopeno é um potente antioxidante lipossolúvel responsável por neutralizar radicais livres, reduzir o estresse oxidativo e proteger as lipoproteínas contra a oxidação do LDL-c, mitigando a progressão da aterosclerose. Maiores concentrações de licopeno no organismo estão associadas a um menor risco de hipertensão, osteoporose e certos tipos de câncer, incluindo o de mama e o pulmonar.
Nota prática: O licopeno em produtos de tomate processados ou cozidos é absorvido de forma mais eficiente pelo trato gastrointestinal do que no tomate cru.
Aplicação Clínica e Conduta Nutricional Prática
- Avaliação Antropométrica e de Composição Corporal
O nutricionista deve acompanhar de perto as alterações corporais por meio de bioimpedância ou dobras cutâneas, com foco no monitoramento de: Circunferência da Cintura (CC) e Relação Cintura-Quadril (RCQ), visando identificar o acúmulo de gordura visceral androide.
Massa Livre de Gordura (FFM), estimulando a prática de exercícios físicos de força para prevenir a sarcopenia e a perda de densidade mineral óssea.
- Triagem de Biomarcadores Laboratoriais e Diagnóstico Diferencial
A avaliação laboratorial deve ser individualizada e realizada quando houver indicação clínica, considerando a anamnese, a avaliação nutricional, o histórico de saúde e os fatores de risco. Quando indicados, exames bioquímicos podem auxiliar na avaliação do risco cardiometabólico, do estado nutricional e no diagnóstico diferencial de condições que podem coexistir com o climatério. Entre os exames que podem ser considerados estão:
- Glicemia de jejum e HbA1c: para avaliação do metabolismo glicêmico e acompanhamento de parâmetros relacionados à conduta nutricional.
- Perfil lipídico completo (CT, LDL-c, HDL-c e TG): para avaliação do perfil lipídico e acompanhamento do risco cardiometabólico.
- Hemograma e ferritina sérica: quando houver indicação, para avaliação de parâmetros relacionados ao estado nutricional de ferro.
- Vitamina B12 e folato: quando houver fatores de risco ou suspeita de inadequação nutricional. A homocisteína pode ser considerada em situações específicas, mediante justificativa técnica.
- 25-hidroxivitamina D [25(OH)D]: quando houver indicação clínica ou fatores de risco nutricional relacionados à deficiência.
- TSH e, quando indicado, T4 livre: quando houver indicação e necessidade de integração com a avaliação e o acompanhamento nutricional, considerando a atuação multiprofissional.
- Planejamento alimentar e Prescrição Dietética:
Vitamina B6: 1,5 mg/dia
Carnes, peixes, grãos integrais, feijões, banana.
Incluir leguminosas diariamente e cereais não processados.
Vitamina B12: 2,4 µg/dia
Alimentos de origem animal (carnes, ovos, laticínios).
Avaliar suplementação em pacientes vegetarianas/veganas ou com má absorção gástrica.
Vitamina D: 800 UI/dia
Peixes gordos, gema de ovo, cogumelos expostos ao sol ou suplementação.
Suplementação com colecalciferol (D3) se os níveis séricos estiverem < 30 ng/mL.
Cálcio: 1.000 a 1.200 mg/dia
Leite e derivados, vegetais verde-escuros, peixes (ex: sardinha), leguminosas, oleaginosas e sementes.
Ferro: 8 mg/dia
Vegetais folhosos escuros, carnes vermelhas magras, feijões.
Evitar excesso de carnes vermelhas. Preferir fontes de ferro não-heme associadas à vitamina C.
Magnésio: 320mg/dia
Sementes de abóbora, amêndoas, espinafre, aveia.
Estimular o consumo de sementes e oleaginosas nas colações.
Ômega-3: priorizar o consumo de peixes, especialmente peixes ricos em EPA e DHA. A suplementação deve ser individualizada conforme ingestão alimentar, indicação clínica, perfil lipídico e avaliação do risco cardiovascular.
Peixes de águas frias (salmão, sardinha), sementes de linhaça e chia.
Suplementação purificada de EPA/DHA na presença de dislipidemia ou risco cardiovascular.
Licopeno: priorizar fontes alimentares de licopeno, como tomate e seus derivados, especialmente preparações cozidas e associadas a fontes de gordura.
Tomates (cozidos ou molho), melancia, goiaba vermelha, mamão.
Por fim, a transição para a menopausa e o período do pós-menopausa representam uma fase na qual a intervenção do nutricionista faz total diferença na longevidade e na prevenção de morbidades crônicas. A aplicação prática baseada nos nutrientes essenciais no climatério permite um controle metabólico rigoroso, protegendo a saúde cardiovascular, reduzindo o estresse oxidativo e devolvendo vitalidade e bem-estar. Através de um plano alimentar individualizado, do monitoramento cuidadoso de exames bioquímicos e da modulação inteligente de suplementos de alta qualidade, é possível devolver vitalidade e bem-estar para a mulher.
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Revisão: Daniella Feiferis



