Carências Nutricionais na Gestante

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Sumário

Você já deve ter percebido em seu consultório como a demanda de cada gestante ao longo do acompanhamento nutricional é diferente.

Portanto quanto mais específica e focada na individualidade for sua abordagem, mais fácil será a adesão e o resultado positivo do acompanhamento e consequentemente da gestação.

A gestação é um fenômeno fisiológico que acarreta uma série de transformações no organismo materno, que têm a finalidade de garantir o crescimento e o desenvolvimento do feto e, ao mesmo tempo, de “proteger” o organismo materno fazendo com que, ao final do processo, a gestante se encontre em condições de saúde satisfatórias e apta para o processo de lactação.

Paralela a todas as mudanças fisiológicas existe uma enorme transformação psíquica e social acontecendo. Sendo assim é fundamental que tenhamos um tempo para escutar, perceber as angústias, medos e expectativas da gestante, principalmente nas questões relativas à sua saúde e do bebê e a adequada nutrição para este momento tão sublime. Pois o vínculo e a confiança serão determinantes para a adesão ao tratamento.

Uma questão frequente na consulta nutricional no período gestacional é a insegurança quanto a nutrição do futuro bebê.

Diante desta dúvida, trouxemos algumas questões referentes as Carências Nutricionais mais comuns de micronutrientes e algumas orientações possíveis para que possamos minimizá-las.

Qual micronutriente será que está faltando?

A influência da alimentação adequada na gestação é evidente e se relaciona com o trabalho de parto, evitando complicações durante o puerpério, favorecendo a lactação e possibilitando ao recém-nascido um bom estado nutricional. As gestantes necessitam de um suprimento adicional de calorias, proteínas, vitaminas e minerais para o crescimento e o desenvolvimento do feto e também para manter reservas teciduais adequadas de nutrientes.

As deficiências nutricionais nas gestantes podem levar a alterações tanto no organismo materno quanto do recém-nascido. A alteração no seu estado nutricional pode levar à anemia, a hemorragias, ao ganho de peso inadequado, ao parto prematuro e à rotura prematura das membranas.

O bem-estar do feto está associado ao estado nutricional da mulher durante a gestação. Se a gestante apresentar menores reservas nutricionais, há um risco do feto e do recém-nascido apresentarem déficit no desenvolvimento neurocognitivo, malformações congênitas, prematuridade, ganho de peso insuficiente, levando ao crescimento de crianças pequenas para idade gestacional. As necessidades nutricionais durante a gestação variam bastante, dependendo da individualidade, da taxa de crescimento e do estágio de maturação da futura mãe. A suplementação de nutrientes só deve ser pensada depois do ajuste dietético e de se constatar as possíveis carências nutricionais.

Alguns fatores de risco para carência nutricional na gestante:

• Deficiência na ingestão de nutrientes, alimentação hipercalórica, porém pobre em nutrientes;

• Utilização prolongada de anticoncepcionais – estudos comprovam que os anticoncepcionais levam a deficiência de micronutrientes como: Vit B 12, B6, B9, zinco, selênio, fósforo e magnésio;

• Modismos, vegetarianismo, anorexia e bulimia, alergias alimentares- levam a restrição de grupos alimentares importantes;

• Gestação na adolescência – a adolescência é um período de pouco investimento em alimentos com maior valor nutricional, a gestação nesta fase acaba levando a uma competição nutricional no binômio mãe /feto;

• Questões gástricas, doenças crônicas intestinais, parasitoses- a função gastro- intestinal adequada é fundamental para que haja uma adequada disponibilidade dos nutrientes ingeridos – a vida B12 por exemplo é dependente do fator intrínseco e este da saúde gástrica;

• Polimorfismos Genéticos- por exemplo na enzima Metiltetrahidrofolato redutase (MTHFR) envolvida na remetilação da homocisteína em metionina);

• Alta exposição intrauterina a xenobióticos- Bisfenol A (BPA), fitalatos, hidrocarboneto policíclico aromáticos HACPs, dioxinas – substâncias químicas precisarão ser metabolizadas (destoxificadas) requerendo um maior aporte nutricional, estudos comprovam que as mesmas podem migrar principalmente pelo leite materno e funcionar como disruptores endócrinos.

• Utilização prolongada de anticoncepcionais- estudos comprovam que os anticoncepcionais levam a deficiência de micronutrientes como: Vit B 12, B6, B9, zinco, selênio, fósforo e magnésio;

• Alcoolismo e Exposição a cigarro – podem levar a hipóxia fetal. Além de contribuir para anorexia materna, depleção de folato e excesso de toxinas.

São muitos os nutrientes necessários para uma gestação saudável, aqui iremos abordar três importantes carências Nutricionais na gestação: Ferro, Vitamina A e Cálcio.

É pequeno o número de mulheres que inicia a gestação com níveis adequados de FERRO

Na gestação – segundo a OMS – a anemia por deficiência de ferro (DF) é definida por níveis de hemoglobina abaixo de 11g/dl. As gestantes têm maior risco de desenvolver DF pelas altas demandas fisiológicas próprias e da unidade feto-placentária, difíceis de serem supridas apenas pela dieta. Anemia ferropriva é a carência nutricional mais frequente na gestação. Neste período, além da expansão do volume sanguíneo, também ocorre aumento de demanda pelas necessidades do feto. Além disso, é pequeno o número de mulheres que iniciam a gestação com os estoques de ferro adequados. Isso justifica um cuidado com os níveis de ferro da mulher na preconcepção. A partir da sexta semana de gestação, há um aumento progressivo da volemia plasmática, levando a hemodiluição – aumento do volume plasmático em relação ao volume eritrocitário devido à formação da placenta e ao rápido desenvolvimento do feto, tendendo a estabilizar na vigésima oitava semana.

O que a deficiência de ferro pode causar na mãe e no bebê?

* Valores de hemoglobina materna inferiores a 6,5 g/dl associam-se a comprometimento da vitalidade fetal e aumento da mortalidade perinatal.

Você sabia que a cegueira noturna foi recomendada como indicador populacional do estado nutricional da VITAMINA A?

Embora não considerada causa direta de morte materna a deficiência de vitamina A pode comprometer o resultado do processo gravídico, tendo em vista o papel desta vitamina na reprodução normal, na síntese de hormônios esteróides, no crescimento e desenvolvimento do feto, na manutenção da integridade epitelial e no sistema imunológico. A deficiência de vitamina A predispõe as gestantes ao aborto espontâneo e à maior gravidade das intercorrências gestacionais, além de estar associada a infecções, à anemia, ao desenvolvimento de síndromes hipertensivas da gravidez e à maior mortalidade materna e dos lactentes nos primeiros seis meses de vida.

Recentemente, a cegueira noturna, manifestação ocular mais precoce da deficiência de vitamina A, foi recomendada como indicador apropriado para avaliação populacional do estado nutricional de vitamina A em gestantes e puérperas e a prevalência estimada para o Brasil seria de 3,7%. No entanto, estudo recente desenvolvido em maternidade do município do Rio de Janeiro, revelou que 17,9% de puérperas, desenvolveram cegueira noturna gestacional e esta foi associada ao menor número de consultas na assistência pré-natal e à história de aborto. Em gestantes, tem sido observada uma tendência de diminuição dos níveis de retinol sérico, especialmente no último trimestre da gestação. Por outro lado, as reservas de vitamina A do feto são baixas, por causa da seletiva barreira placentária para a passagem dessa vitamina para o feto, provavelmente para evitar efeitos teratogênicos, causando, assim, baixa reserva hepática de vitamina A no recém-nascido. Sendo assim o Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A (PNSA) trabalha com uma mega dose para gestante, imediatamente após o parto em maternidades / hospitais que sejam assistidos (dose recomendada- capsulas de 100.000 a 200.000UI).

A suplementação de CÁLCIO parece reduzir o risco de hipertensão gestacional e pré-eclampsia

Em recente revisão sistemática de ensaios clínicos que compararam a ingestão de cálcio com placebo. Observou-se redução do risco de hipertensão e de pré-eclâmpsia com a suplementação de cálcio quando comparado ao placebo. O efeito foi maior nas gestantes de alto risco e naquelas que apresentavam deficiência de cálcio. Também foi observada significativa redução do risco de desfecho composto – morbidade materna grave/morte materna, em torno de 20% entre as mulheres que receberam suplementação cálcio. A suplementação de cálcio demonstra melhorar a sensibilidade à insulina em mulheres com DM 2 e hipertensão arterial, reduzindo a incidência e gravidade da hipertensão gestacional entre mulheres de alto risco em populações com baixa ingestão de cálcio. Por este motivo a OMS recomenda a suplementação deste mineral para gestantes que tenham um baixo consumo principalmente após a vigésima semana gestacional.

Recomendações Ferro, Vit A e Cálcio na gestação:

Orientações dietéticas

As orientações serão sempre individuais. Abaixo listamos algumas principais orientações que podem ser fornecidas e elaboradas de acordo com a carência nutricional de cada paciente.

Deficiência de Ferro:

  • Reduzir o consumo de café, mate, refrigerantes a base de cola;
  • Observar excesso de: fitatos (cereais, grãos integrais, milho), Oxalatos (espinafre, acelga, folha da beterraba, repolho, chocolate), reduzir o consumo de produtos panificados industrializados – EDTA (antioxidante da indústria de panificação), reduzir o consumo de fosfato (gema de ovo, leite e derivadosformam complexos insolúveis c o ferro- consumir em refeições diferentes dos alimentos fonte de ferro);
  • Aumentar o consumo de proteína animal (1 porção no almoço e jantar);
  • Incluir 1 x ao dia 1 porção de oleaginosas;
  • Consumir 1 porção de leguminosas variadas (feijão, lentilha, grão de bico) no almoço e jantar;
  • Pingar gotas de limão nas leguminosas (Ac ascóbico melhora a absorção do ferro não -heme) ou consumir 1 porção de fruta rica em vitamina C junto com a refeição;
  • Incluir outros alimentos fonte de ferro: tofu, semente de girassol, pistache, uva passa, nozes, ervilha, amendoim, abacate;

Deficiência de Vitamina A:

  • Aumentar o consumo de alimentos fonte de vitamina A – Retinol – origem animal: fígado, leite, ovos, óleo de peixe;
  • Precursores de Vit A – Carotenóides – origem vegetal: vegetais folhosos verde escuros, legumes e frutas amarelados e ou verde escuros;
  • Oferecer 2 porções dia, dos alimentos a seguir -variando: cenoura, batata doce, manga, espinafre cozido, folhas de brócolis crua, melão, beterraba, suco de tomate, damasco, Suco de laranja c cenoura, pupunha
  • Variar as formas de preparo (crus, cozidos);
  • Incluir cenoura em sucos, molhos, arroz, suflês, guisados de carne;
  • Procurar agregar a refeição lipídios para favorecer a absorção por se tratar de uma vitamina lipossolúvel.

Deficiência de Cálcio:

  • Reduzir o consumo de cafeína;
  • Evitar excesso de refeições hiperproteicas (as mesmas parecem aumentar a excreção de cálcio);
  • Reduzir a ingestão de Sal (alta ingestão de cloreto de Sódio -NaCL) resulta em maior perda de cálcio pela urina;
  • Salpicar gergelim preto na salada (2x ao dia)
  • Recomendar os intolerantes aos lácteos e vegetarianos que façam uso de outros alimentos fonte de cálcio, como: amêndoas, espinafre cozido, tofu, avelãs, castanha-do-brasil, beterraba cozida, feijão cozido, sardinha, melado, gergelim preto, brócolis, couve.
  • Ensinar aos Intolerantes aos lácteos ou veganos – receitas de bebida vegetal a base de oleaginosas (fonte de cálcio).

 

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Referências Bibliográficas:

Brasil. Ministério da Saúde (MS). Portaria n 729 MS/GM de 13 de maio de 2005 institui o programa de Vit.A e dá outras providências. Brasília. MS; 2005

Côrtes MH, Vasconcelos IAL, Coitinho DC. Prevalência de anemia ferropriva em gestantes brasileiras: uma revisão dos últimos 40 anos. Ver Nutr Campinas 2009; 22(3); 409-418

Cozzolino, S.M.F. Biodisponibilidade de nutrientes. 5ª edição. Barueri. SP

Protocolo Clínico e diretrizes terapêuticas. Anemia por deficiência de ferro. Portaria SAS/MS nº 1247 de 10 de novembro de 2014. Disponível em: http://dab.saude.gov.br/portaldab/pnsf.php Acesso em 07/10/2017

World Health Organization (WHO). Guideline:vitamina A supplementation in pregnant Women. Geneva:WHO;2011

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