A gestação é compreendida como parte fundamental dos “primeiros 1.000 dias”, período que abrange a concepção até os dois anos de vida da criança. Esta é uma janela crítica de desenvolvimento, onde a nutrição materna atua como um dos fatores modificáveis mais importantes para otimizar os desfechos neonatais e reduzir o risco de mortalidade infantil.
Para o nutricionista, o manejo das recomendações nutricionais na gestação exige um equilíbrio entre o suporte ao crescimento fetal, a manutenção da homeostase materna e a preparação para a lactação.
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Avaliação Antropométrica e Ganho de Peso Gestacional (GPG)
A avaliação do estado nutricional deve ser precoce para identificar riscos. O Índice de Massa Corporal (IMC) pré-gestacional é o ponto de partida para definir as metas de ganho de peso.
De acordo com o Ministério da Saúde, com base nas curvas propostas para o ganho de peso gestacional (2022), as faixas de ganho de peso total para gestações únicas são:
- Baixo peso (IMC < 18,5): 9,7 a 12,2 kg.
- Eutrofia (IMC 18,5 – 24,9): 8,0 a 12,0 kg.
- Sobrepeso (IMC 25,0 – 29,9): 7,0 a 9,0 kg.
- Obesidade (IMC ≥ 30,0): 5,0 a 7,2 kg.
O GPG insuficiente correlaciona-se com restrição de crescimento intrauterino e prematuridade, enquanto o ganho excessivo eleva o risco de Diabetes Gestacional, Síndromes Hipertensivas da Gestação e macrossomia fetal.
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Necessidades Energéticas e Macronutrientes
Durante a gestação, as necessidades de energia, macronutrientes, micronutrientes e líquidos aumentam para suprir as adaptações fisiológicas maternas e garantir o crescimento e o desenvolvimento adequados do feto. Esse aporte também é essencial para a formação da placenta, do útero, das glândulas mamárias e para a expansão do volume sanguíneo. Além disso, parte da energia consumida é armazenada como reserva para atender às demandas da lactação.
Proteínas
As necessidades proteicas aumentam significativamente para suportar a acréscimo de tecidos maternos e fetais. A RDA sugere 1,1 g/kg/dia (ou cerca de 71 g/dia). Além disso, é importante garantir adequada ingestão de proteínas de qualidade.
Carboidratos e Fibras
A recomendação mínima é de 175 g/dia para suprir a utilização de glicose pelo cérebro fetal e pelo metabolismo placentário.
Deve-se orientar o consumo de alimentos integrais para atingir a meta de 28 g/dia de fibras.
Ácidos Graxos e Ômega-3
O consumo de gorduras deve representar de 20 a 30% da energia total. Dentro desse grupo, merece destaque o ômega-3 (DHA/EPA), fundamental para o desenvolvimento do Sistema Nervoso Central e da retina fetal, além de atuar como anti-inflamatório e imunomodulador, podendo contribuir para a redução do risco de prematuridade e de depressão pós-parto.
A recomendação de ingestão de ômega-3 para gestantes é de 1,4 g/dia, segundo a Recommended Dietary Allowance (RDA) dos Estados Unidos e do Canadá, um incremento em relação aos 1,1 g/dia recomendados para mulheres não gestantes.
Na prática, essa necessidade pode ser suprida com a recomendação de três porções semanais de peixes ricos em ômega-3, especialmente no último trimestre, período em que a demanda fetal por esse nutriente aumenta em 50 a 70 mg/dia em função do desenvolvimento acelerado do sistema nervoso central.
Quando o consumo alimentar de peixes for insuficiente ou inviável, a suplementação de ômega-3 é uma estratégia importante a ser considerada pelo nutricionista. Nesses casos, recomenda-se priorizar suplementos com certificação de pureza e isentos de metais pesados, garantindo o aporte do nutriente sem os riscos associados à contaminação.
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Micronutrientes: Suplementação e Condutas
Durante a gestação, as adaptações fisiológicas, como a hemodiluição e o aumento das demandas metabólicas, elevam significativamente as necessidades de diversos micronutrientes. Embora uma alimentação equilibrada seja indispensável, ela nem sempre é suficiente para suprir essas demandas, tornando a suplementação uma estratégia importante para prevenir deficiências nutricionais e reduzir o risco de desfechos maternos e fetais desfavoráveis.
- Ácido Fólico: 400 µg/dia no período pré-gestacional até o fim do 1º trimestre. Após isso, 200 a 400 µg/dia até o parto para prevenir defeitos do tubo neural, anemia megaloblástica, aborto, prematuridade e pré-eclâmpsia. Mulheres com fatores de risco para defeitos do tubo neural, como histórico pessoal ou familiar, uso de anticonvulsivantes, doenças que reduzem a absorção de folato (doença celíaca, doença inflamatória intestinal, cirurgia bariátrica) ou diabetes mellitus pré-gestacional, podem se beneficiar de doses mais altas, de até 5 mg/dia, sempre sob avaliação profissional.
- Ferro: 40 mg/dia, recomendado do início da gestação até o 3º mês pós-parto. É importante orientar a paciente sobre os principais efeitos colaterais gastrointestinais (náusea, constipação, fezes escurecidas) e sobre a interação do ferro com café, fitatos e suplementos de cálcio. Recomenda-se, inclusive, intervalo mínimo de 2 horas entre a ingestão de ferro e de cálcio para otimizar a absorção de ambos.
- Cálcio: O consumo de cálcio pela população brasileira está abaixo do recomendado, pesquisas nacionais mostram inadequação de ingestão em mais de 96% das mulheres adultas. Diante disso, o Ministério da Saúde passou a recomendar, em nota técnica conjunta de 2024, a suplementação universal de cálcio para todas as gestantes de forma profilática, na dose de 1.000 mg/dia de cálcio elementar (dois comprimidos de carbonato de cálcio 1.250 mg), com início na 12ª semana de gestação até o parto, como estratégia de prevenção de pré-eclâmpsia e eclâmpsia, distúrbios hipertensivos responsáveis por parcela significativa da morbimortalidade materna no Brasil.
Pontos práticos de orientação:
- Evitar ingestão em jejum;
- Não associar à ingestão concomitante de ferro, café ou alimentos ricos em fitatos e oxalatos (feijão, espinafre, couve, beterraba, castanhas);
- Preferir o consumo noturno, associado a um copo de leite ou suco de frutas.
- Vitamina D: Suplementação de 600 UI/dia para todas as gestantes, visando manter valores de 25(OH)d acima de 30 ng/mL. Para populações de risco, a dose varia conforme a idade: 600-1.000 UI/dia entre 14 e 18 anos, e 1.500-2.000 UI/dia acima de 18 anos.
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Orientações nutricionais para gestantes:
- Prefira alimentos in natura. Evite os ultraprocessados.
- Consuma um mínimo de 400 g/dia (ou cinco porções) de frutas, legumes e vegetais.
- Dê preferência a alimentos integrais.
- Consuma três porções/semana de peixes ricos em ômega-3 e com baixo teor de mercúrio (exemplo: sardinha, linguado, tilápia e truta).
- Limite o consumo de açúcar para 5% e o de gordura para 30% do valor energético total recomendado, evitando frituras e alimentos gordurosos.
- Limite o consumo de sal (iodado) para 5 g/dia (uma colher de chá).
- Consuma pelo menos 3 L/dia de água.
- Coma regularmente e com atenção. Prefira se alimentar em lugares tranquilos e limpos e na companhia de outras pessoas.
- Faça suas compras em locais com grande variedade de alimentos in natura. Quando possível, prefira alimentos orgânicos e agroecológicos.
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Alimentos que devem ser evitados ou rigorosamente controlados na gestação
Devido às mudanças no sistema imune, a gestante é mais suscetível a doenças transmitidas por alimentos (DTAs), como Listeriose e Toxoplasmose.
Devem ser evitados ou rigorosamente controlados:
- Carnes e Pescados Crus ou Malpassados: Risco de contaminação pelo Toxoplasma gondii, Salmonella e Listeria monocytogenes.
- Ovos Crus ou Gemas Moles: Risco de Salmonella (evitar também mousses e maioneses caseiras).
- Laticínios Não Pasteurizados: Queijos macios (como brie, camembert, gorgonzola e queijo minas frescal artesanal) e leite cru, pelo alto risco de Listeria monocytogenes.
- Peixes com Alto Teor de Mercúrio: Tubarão (cação), peixe-espada, cavala e marlim, devido a neurotoxicidade que pode ser causada pelo consumo de metais pesados.
- Bebidas Alcoólicas: Abstinência total recomendada. O álcool atravessa a placenta e pode causar a Síndrome Alcoólica Fetal e aborto.
- Embutidos e Frios: Salsichas e carnes frias de balcão devem ser evitadas por se tratarem de alimentos ultraprocessados, com alto teor de sódio e aditivos alimentares.
- Café, chás, refrigerantes e chocolates: O consumo de cafeína não deve ultrapassar 200mg/dia (2 xícaras de café por dia, 100-150ml). O consumo excessivo pode levar ao baixo peso ao nascer (BPN) e má formação congênita.
Aplicação prática para o Nutricionista
Na prática clínica, o atendimento deve seguir um protocolo estruturado:
- Avaliação Inicial: Realizar a avaliação dietética, calcular o IMC pré-gestacional, planejar o ganho de peso gestacional e definir a meta de ganho de peso com base nas curvas do Ministério da Saúde.
- Planejamento Dietético: Priorizar alimentos in natura e desencorajar ultraprocessados.
- Educação Nutricional: Orientar sobre a higienização de alimentos, alimentos que devem ser evitados/controlados, o fracionamento das refeições e a hidratação (3 litros/dia).
- Atenção a Dietas Especiais: Gestantes vegetarianas ou veganas necessitam de monitoramento rigoroso de Vitamina B12 e ferro.
Em conclusão, as recomendações nutricionais na gestação vão além do simples aporte calórico, trata-se de garantir a qualidade biológica dos nutrientes e a segurança alimentar. O nutricionista deve atuar de forma individualizada, monitorando o ganho de peso e ajustando a suplementação conforme a necessidade clínica de cada paciente.
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Referências Bibliográficas:
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Universidade Federal de Sergipe. Guia para a organização da Vigilância Alimentar e Nutricional na Atenção Primária à Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota Técnica Conjunta n.º 251/2024/COEMM/CGESMU/DGCI/SAPS/MS e CGAN/DEPPROS/SAPS/MS: recomendações para a suplementação de cálcio durante a gestação. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024.
FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Nutrição na gravidez. Femina, v. 53, n. 2, p. 110-116, 2025.
PERUMAL, Nandita; GERNAND, Alison D. Nutrition during Pregnancy and Birth Outcomes. Annals of Nutrition and Metabolism, v. 81, suppl 3, p. 19–32, 2025.
Revisão: Daniella Feiferis



