Sintomas da perimenopausa

Perimenopausa: Condutas Práticas para Nutricionistas

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Sumário

A transição menopausal, chamada de perimenopausa, é uma fase importante na vida da mulher, caracterizada por flutuações e subsequente declínio dos hormônios sexuais. Para o nutricionista clínico, este período representa uma oportunidade essencial para intervenções preventivas, uma vez que as alterações hormonais impactam diretamente o perfil lipídico, a distribuição de gordura corporal e o risco cardiovascular.

Aspectos Fisiológicos, Endócrinos e Metabólicos da Perimenopausa

A perimenopausa é a fase de transição que antecede a menopausa, caracterizada por alterações progressivas no funcionamento ovariano e pelo início da irregularidade dos ciclos menstruais. Essa fase se inicia quando os ciclos passam a apresentar variações de duração e fluxo, podendo ou não estar acompanhados de sintomas clínicos, e se estende até doze meses após a última menstruação. Entre os sintomas mais frequentes, destacam-se os vasomotores, como ondas de calor e sudorese noturna, além de distúrbios do sono, distúrbios cognitivos, alterações psicológicas e de humor, ressecamento vaginal e declínio da libido.

Do ponto de vista endócrino, esse processo é dinâmico. Na transição inicial da menopausa, pode ocorrer uma predominância relativa de estrogênio. Nessa fase, embora o hormônio folículo-estimulante (FSH) já esteja elevado, os níveis de estradiol geralmente ainda se mantêm estáveis e, em alguns momentos do ciclo, podem até aumentar temporariamente.

Ao mesmo tempo, a função do corpo lúteo começa a diminuir e a anovulação se torna mais frequente, o que leva à redução da produção de progesterona. Esse desequilíbrio, com menor ação da progesterona em relação ao estrogênio, contribui para as primeiras alterações no padrão menstrual, como mudanças no fluxo e na regularidade dos ciclos.

Alterações na Composição Corporal

Uma das queixas mais frequentes no consultório em relação à perimenopausa é o ganho de peso. Durante a transição, observa-se uma mudança no fenótipo de armazenamento de gordura: a transição do formato ginóide (tipo “pera”) para o andróide (tipo “maçã”). Ocorre um aumento significativo da adiposidade central e da gordura visceral, que são preditores independentes de risco cardiometabólico, diabetes tipo 2 (DM2) e câncer de mama.

Riscos Cardiovasculares e Marcadores Lipídicos na Perimenopausa

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre as mulheres globalmente. Na perimenopausa, o perfil lipídico tende a tornar-se pró-aterogênico.

  • Lipídios: Observa-se aumento do colesterol total, do LDL e dos triglicerídeos, acompanhado de uma redução na função protetora do HDL.
  • Lipoproteína (a): A concentração de Lp(a) tende a elevar-se especificamente neste período, contribuindo para o risco cardiovascular.
  • Resistência à Insulina (RI): A redistribuição de gordura e a redução do gasto energético predispõem à resistência insulínica e à hiperinsulinemia, elevando as chances de desenvolvimento de síndrome metabólica.

Aplicação Prática: Protocolo de Atendimento Nutricional na Perimenopausa

Para um manejo nutricional eficaz na perimenopausa, o nutricionista deve seguir um roteiro que combine avaliação diagnóstica e intervenção dietoterápica personalizada.

Passo 1: Avaliação Antropométrica e Clínica

Além do IMC, o foco deve ser a medida da circunferência abdominal e a relação cintura-quadril, indicadores mais fidedignos de gordura visceral nesta fase. O rastreamento de fatores de risco como hipertensão arterial sistêmica (HAS) e diabetes deve ser constante.

Passo 2: Análise Laboratorial para Conduta

A prescrição dietética deve ser orientada pelos seguintes exames:

  • Perfil lipídico completo.
  • Glicemia de jejum e hemoglobina glicada (HbA1c).
  • Dosagem de TSH (visto que as disfunções tireoidianas aumentam com a idade e seus sintomas simulam o hipoestrogenismo).

Passo 3: Intervenção Dietoterápica na Perimenopausa

A alimentação deve ser equilibrada e voltada para o controle do estado inflamatório e do risco cardiovascular.

  • Equilíbrio Energético e Proteico: Ajustar a ingestão energética frente à redução fisiológica do gasto metabólico basal. Recomenda-se um déficit calórico moderado de 500 a 700 kcal/dia em relação às necessidades atuais, garantindo que a ingestão não seja inferior à taxa metabólica basal. A oferta proteica deve ser de 1,0 a 1,2 g/kg de peso corporal/dia, sendo essencial para a preservação da massa magra.
  • Qualidade das Gorduras: Priorizar gorduras insaturadas e reduzir saturadas e trans para melhorar o perfil de LDL e TG. As gorduras saturadas não devem exceder 10% da energia total.
  • Fibras e Baixo Índice Glicêmico: A dieta deve priorizar carboidratos de baixo índice glicêmico e ser rica em fibras (30 a 45g/dia), estratégia crucial para melhorar a sensibilidade à insulina e o controle glicêmico.
  • Hidratação: Prescrever a ingestão hídrica de 33 mL/kg de peso/dia, distribuída ao longo do dia para auxiliar na termorregulação e desintoxicação.
  • Sódio: Redução da ingestão de sal (limite de 5g/dia), especialmente em mulheres com sensibilidade aumentada ao sódio no climatério, visando o controle da pressão arterial.
  • Triptofano: A conduta nutricional pode incluir alimentos fontes de triptofano (precursor da melatonina), como aveia, sementes, ovos e cerejas, além de evitar bebidas estimulantes próximo ao horário de dormir.
  • Isoflavonas de Soja: Evidências sugerem que o consumo regular (ex: 20 mg/dia de isoflavonas via alimentos) pode reduzir a frequência e gravidade dos fogachos (ondas de calor) devido ao seu efeito fitoestrogênico.

Passo 4: Estilo de Vida e Suplementação na Perimenopausa

  • Atividade Física: Incentivar a prática de pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada por semana, associada a exercícios de resistência (musculação) pelo menos duas vezes por semana para preservar massa magra e saúde óssea.
  • Saúde Óssea: Garantir aporte adequado de cálcio (a recomendação para mulheres acima de 51 anos é de 1000 a 1200mg/dia, preferencialmente via alimentação) e vitamina D (mínimo de 1000 UI/dia, frequentemente chegando a 2000 UI, necessária especialmente em períodos de baixa exposição solar), dada a aceleração da perda de massa óssea após a queda do estrogênio.
  • Sono e Estresse: O manejo do estresse crônico e a higiene do sono são fundamentais, pois a privação de sono está associada a piores índices de saúde cardiovascular em mulheres na menopausa. 
  • Sintomas Vasomotores: Os “fogachos” (ondas de calor) podem ser gatilhados por álcool e cafeína em algumas mulheres. Embora fitoestrógenos e acupuntura sejam frequentemente buscados, as diretrizes apontam que eles podem não ser superiores ao placebo para alívio de sintomas severos, sendo a mudança de estilo de vida e a terapia hormonal os tratamentos de primeira linha documentados.

Terapia Hormonal e Nutrição na Perimenopausa: O que saber?

Embora a prescrição da terapia hormonal seja de competência médica, o nutricionista deve entender sua interação com o metabolismo.

  • Via de Administração: A terapia hormonal por via transdérmica (feita pela pele, em vez de comprimidos) é preferível em pacientes com obesidade, dislipidemia e fumo, pois apresenta menor impacto no risco de tromboembolismo e nos níveis de triglicerídeos comparada à via oral.
  • Monitoramento: Mulheres em terapia hormonal oral podem apresentar aumento de triglicerídeos, exigindo um controle nutricional mais rigoroso desse marcador.

O manejo nutricional na perimenopausa vai muito além da simples perda de peso. É um trabalho de avaliação de risco e proteção metabólica. O nutricionista tem o papel fundamental de educar a paciente sobre a nova fisiologia do seu corpo, incentivando hábitos que não apenas melhorem a qualidade de vida imediata (reduzindo fogachos e insônia), mas que também garantam uma longevidade cardiovascular saudável.

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Revisão: Daniella Feiferis

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