Lactação

Recomendações Nutricionais na Lactação: Micronutrientes Essenciais

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Sumário

A lactação é um período de elevada demanda metabólica, caracterizado por adaptações fisiológicas que visam garantir a produção de leite materno e o adequado crescimento e desenvolvimento do lactente. Nesse contexto, as recomendações nutricionais na lactação assumem papel fundamental não apenas para a manutenção da saúde materna, mas também para a qualidade nutricional do leite humano.

Embora o leite materno seja considerado o alimento ideal para o lactente nos primeiros meses de vida, diversos nutrientes presentes em sua composição podem sofrer influência da alimentação e do estado nutricional da nutriz. Por isso, o acompanhamento nutricional durante a lactação deve fazer parte da prática clínica do nutricionista, especialmente em grupos de maior risco para deficiências nutricionais.

 

Recomendações alimentares para nutrizes

A alimentação da mulher que amamenta deve priorizar alimentos minimamente processados e nutricionalmente densos.

De forma geral, recomenda-se:

  • Consumo adequado de frutas e hortaliças;
  • Inclusão de leguminosas regularmente;
  • Preferência por cereais integrais;
  • Consumo de oleaginosas e sementes;
  • Fontes proteicas de boa qualidade: A DRI (do inglês dietary reference intakes – ingestão dietética de referência) sugere um consumo de 1,3 g/kg/dia (71 g/dia) ou um adicional de 25 g de proteína por dia durante a lactação;
  • Adequada ingestão de fibras (29 g/dia);
  • Adequada ingestão hídrica (3,8 L/dia).
  • Peixes como fonte de ácidos graxos ômega-3: recomenda-se o consumo regular de peixes ricos em ômega-3 e com baixo teor de mercúrio, como sardinha, tilápia, linguado e truta, em quantidade equivalente a duas a três porções por semana (220 a 340 g). Quando a ingestão desses alimentos for insuficiente, o nutricionista pode considerar a suplementação de ômega-3, priorizando produtos de qualidade comprovada, certificados e livres de contaminantes, como metais pesados.

Padrões alimentares ricos em alimentos in natura e minimamente processados favorecem maior densidade nutricional e melhor aporte de vitaminas e minerais, além de contribuírem para a saúde materna no pós-parto.

 

Micronutrientes essenciais durante a lactação

  1. Vitamina A

O colostro é particularmente rico em vitamina A, fundamental para a função imunológica do recém-nascido. A carência materna dessa vitamina pode aumentar o risco de morbimortalidade de origem infecciosa no lactente.

Ingestão diária recomendada: 1.300 µg/dia.

  1. Vitaminas do complexo B

A lactação aumenta a necessidade de vitaminas do complexo B devido ao seu envolvimento no metabolismo energético, síntese proteica, regulação imunológica e metabolismo de aminoácidos.

Ingestão diária recomendada:

  • Tiamina (vitamina B1): 1,4 mg/dia;
  • Riboflavina (vitamina B2): 1,6 mg/dia;
  • Piridoxina (vitamina B6): 2,0 mg/dia;
  • Ácido fólico (vitamina B9): 500 µg/dia.
  • Cobalamina (vitamina B12): 2,8 µg/dia.

A vitamina B12 merece atenção especial em mulheres vegetarianas e veganas. Sua deficiência está associada a alterações neurológicas nos lactentes, sendo a suplementação uma estratégia eficaz de prevenção.

  1. Vitamina D

Essencial para o metabolismo do cálcio. O aleitamento materno exclusivo pode estar associado à deficiência desta vitamina no lactente caso a nutriz apresente níveis insuficientes dessa vitamina ou exposição solar inadequada.

Recomendação de suplementação de vitamina D: 2.000 UI/dia para nutrizes em aleitamento materno exclusivo.

  1. Cálcio

Durante a lactação, grande parte do cálcio utilizado na produção do leite é mobilizada do esqueleto materno. Embora a absorção intestinal de cálcio aumente nesse período, muitas mulheres não atingem as recomendações diárias por meio da alimentação. Dessa forma, garantir ingestão adequada de cálcio torna-se uma estratégia importante para preservar a saúde óssea materna.

Ingestão diária recomendada:

  • 300 mg/dia para adolescentes entre 14 e 18 anos;
  • 1000 mg/dia para mulheres acima de 19 anos.

A avaliação dietética deve identificar o consumo habitual de laticínios ou outras fontes alimentares de cálcio, permitindo intervenções precoces quando houver risco de inadequação.

  1. Ferro

O ferro é um micronutriente importante durante a lactação. Nos primeiros meses após o parto, a amenorreia ajuda a compensar as perdas de ferro, reduzindo a demanda em comparação às mulheres não lactantes. No entanto, com o retorno da menstruação, as reservas podem diminuir significativamente, especialmente quando a ingestão alimentar é insuficiente.

Recomendação de suplementação de ferro: 40 mg de ferro elementar por dia até o terceiro mês pós-parto e/ou pós-aborto, conforme o protocolo do Ministério da Saúde (2022).

Caso seja diagnosticada anemia, a dose deve ser ajustada para fins de tratamento e não apenas profilaxia.

  1. Iodo

O iodo é essencial para a síntese dos hormônios tireoidianos e para o desenvolvimento neurológico infantil. O recém-nascido possui baixa capacidade de armazenamento desse mineral e depende do aporte fornecido pelo leite materno.

Recomendação de suplementação de iodo: 250 µg/dia, de acordo com a OMS.

  1. Selênio

O selênio desempenha papel importante na proteção antioxidante do lactente, além de contribuir para a defesa contra o estresse oxidativo. O mineral também exerce funções imunomoduladoras e anti-inflamatórias, sendo fundamental para o crescimento e desenvolvimento infantil.

Recomendação de suplementação de selênio: 70 µg/dia.

 

A deficiência de micronutrientes ainda representa um importante desafio em diferentes contextos socioeconômicos. Durante a lactação, as necessidades de determinadas vitaminas e minerais aumentam para atender às demandas maternas e garantir o adequado aporte de nutrientes ao lactente, favorecendo seu crescimento e desenvolvimento. Nesse contexto, a suplementação com múltiplos micronutrientes, quando indicada, pode contribuir para a prevenção e a correção de deficiências nutricionais.

 

Aplicação prática para nutricionistas

Durante a consulta nutricional da mulher lactante, recomenda-se seguir alguns passos fundamentais:

  • Anamnese detalhada: Antes da amamentação, é importante investigar a realização de mamoplastias, pois cirurgias de maior porte podem lesionar ductos mamários ou unidades produtoras de leite, favorecendo a ocorrência de hipogalactia ou dificuldades na drenagem do leite. No entanto, as técnicas cirúrgicas mais modernas são planejadas para preservar ao máximo essas estruturas, reduzindo esse risco. Além da história cirúrgica, a avaliação alimentar deve contemplar o consumo de frutas e hortaliças, fontes de proteínas, laticínios ou seus substitutos, alimentos ricos em ômega-3 e a ingestão de alimentos ultraprocessados.
  • Avaliação antropométrica: Utilize o IMC para monitorar a recuperação do peso no período pós-parto, evitando restrições calóricas severas que possam comprometer a produção de leite e a manutenção da lactação. No entanto, é importante destacar que, até o momento, não existe um protocolo antropométrico padronizado e específico para a avaliação de nutrizes.
  • Avaliar sinais clínicos e exames laboratoriais: O monitoramento bioquímico é a base para identificar deficiências precocemente.
  • Considerar suplementação individualizada: A suplementação deve ser baseada na avaliação nutricional, histórico clínico e recomendações vigentes, considerando especialmente os micronutrientes com maior risco de inadequação.
  • Identificar grupos de risco: Maior atenção deve ser dada a vegetarianas e veganas, mulheres com restrições alimentares, pós-cirurgia bariátrica, lactantes adolescentes e mulheres com histórico de deficiências nutricionais.
  • Planejamento Dietético: Priorizar alimentos in natura e desencorajar ultraprocessados.
  • Promover educação nutricional: Orientar a nutriz sobre: alimentação equilibrada, hidratação adequada (3,8L/dia), segurança alimentar e continuidade dos cuidados nutricionais iniciados na gestação.
  • Incentivo ao Aleitamento: Recomendar o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e continuado até os 2 anos ou mais.

 

Por fim, as recomendações nutricionais na lactação vão muito além do aumento das necessidades energéticas. A adequação da ingestão de micronutrientes é fundamental para preservar a saúde materna e garantir o aporte adequado de nutrientes ao lactente por meio do leite humano.

O nutricionista exerce papel central nesse processo ao identificar fatores de risco, monitorar o estado nutricional e implementar estratégias alimentares e de suplementação individualizadas. Uma abordagem baseada em evidências contribui para melhores desfechos maternos e infantis e fortalece a prática do aleitamento materno.

 

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Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia para a organização da Vigilância Alimentar e Nutricional na Atenção Primária à Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Amamentação. São Paulo: FEBRASGO, 2018. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, n. 6).

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Nutrição na gravidez. Femina, v. 53, n. 2, p. 110-116, 2025.

IGARSABA, Luiza Arregui; JUNG, Natália Miranda. Atenção nutricional nos ciclos da vida: guia para profissionais da Atenção Primária à Saúde. Porto Alegre: Hospital Nossa Senhora da Conceição, 2021. 200 p. ISBN 978-65-87505-07-7.

MARSHALL, N. E. et al. The importance of nutrition in pregnancy and lactation: lifelong consequences. American Journal of Obstetrics & Gynecology, v. 226, n. 5, p. 607-632, 2022.

RIBEIRO, Elane Cristina Vallim; RAMALHO, Douglas Arruda; CASTILHO, Marilza; CAPOROSSI, Cervantes. Avaliação do teor de selênio total no leite humano maduro. BRASPEN Journal, São Paulo, v. 33, n. 4, p. 424-427, 2018.

 

Revisão: Daniella Feiferis

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