Abordagem nutricional do paciente com hipotireoidismo

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Sumário

hipotireoidismo

O hipotireoidismo, uma condição prevalente que afeta a glândula tireoide, emerge como um desafio significativo para milhões de pessoas em todo o mundo. Esta disfunção glandular, caracterizada pela produção insuficiente de hormônios tireoidianos, não apenas impacta o metabolismo, mas também influencia de maneira marcante a qualidade de vida dos indivíduos afetados. Diante dessa complexidade, a abordagem nutricional revela-se não apenas como uma abordagem coadjuvante no tratamento, mas como uma ferramenta fundamental na promoção do equilíbrio hormonal e na atenuação dos sintomas associados ao hipotireoidismo.

A tireoide, uma pequena glândula localizada na base do pescoço, exerce um papel crucial na regulação do metabolismo. Quando o funcionamento da tireoide é comprometido, como ocorre no hipotireoidismo, uma série de sintomas adversos se manifesta, incluindo fadiga, ganho de peso, depressão e redução da capacidade cognitiva. No entanto, a compreensão crescente da interconexão entre a nutrição e a saúde tireoidiana abre novas perspectivas para a gestão eficaz dessa condição.

A abordagem nutricional ao hipotireoidismo vai além da mera ingestão de alimentos; trata-se de uma estratégia integrada que reconhece a influência direta dos nutrientes na síntese e na função dos hormônios tireoidianos. Nesse contexto, explorar as nuances dessa interação torna-se imperativo para Nutricionistas, promovendo uma compreensão mais profunda dos ajustes alimentares que podem favorecer o equilíbrio hormonal. Este texto buscará desvendar a complexidade dessa relação, destacando a importância da escolha adequada de alimentos e práticas nutricionais como peças-chave na jornada de controle e manejo do hipotireoidismo.

Papel do Iodo na Tireoide

A glândula tireoide, responsável pela síntese dos hormônios tireoidianos, T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), depende intrinsecamente da presença adequada de iodo para seu funcionamento otimizado. Quando confrontada com o hipotireoidismo, condição em que a produção desses hormônios é reduzida, a ingestão adequada de iodo torna-se um fator determinante na busca pelo equilíbrio hormonal e na atenuação dos sintomas.

A conexão direta entre o iodo e a tireoide reside na participação ativa desse oligoelemento na síntese dos hormônios tireoidianos. O iodo é incorporado às moléculas de tiroxina (T4) e triiodotironina (T3) durante o processo de produção desses hormônios. Em condições normais, a tireoide, estimulada pelo hormônio estimulante da tireoide (TSH) da glândula pituitária, converte o iodo dietético em T3 e T4, essenciais para a regulação do metabolismo, crescimento e desenvolvimento adequado do organismo.

No entanto, no contexto do hipotireoidismo, a produção desses hormônios é reduzida, levando a uma cascata de efeitos adversos no corpo. O iodo, portanto, emerge como uma peça-chave na estratégia nutricional para pacientes com hipotireoidismo, uma vez que sua deficiência pode agravar os sintomas e comprometer ainda mais a função tireoidiana.

As fontes alimentares ricas em iodo são variadas e podem ser facilmente incorporadas à dieta diária. Frutos do mar, como peixes, camarões e algas marinhas, estão entre as opções mais abundantes desse oligoelemento. O sal iodado, amplamente utilizado na alimentação, é uma fonte acessível de iodo, desempenhando um papel crucial na prevenção da deficiência desse mineral. No entanto, é fundamental manter um equilíbrio adequado, uma vez que o consumo excessivo de iodo também pode ser prejudicial à saúde.

Papel do Selênio na Tireoide 

O selênio desempenha um papel crucial na abordagem nutricional do hipotireoidismo. Enquanto a atenção geralmente se volta para o iodo em discussões sobre a saúde da tireoide, o selênio emerge como um cofator essencial, exercendo influência direta na função tireoidiana e na conversão eficiente dos hormônios tireoidianos. Compreender o papel do selênio na gestão do hipotireoidismo é essencial para uma abordagem eficaz na busca pelo equilíbrio hormonal e no alívio dos sintomas.

A tireoide é um órgão altamente dependente do selênio, pois este oligoelemento é incorporado às enzimas essenciais responsáveis pela conversão do hormônio tireoidiano T4 (tiroxina) em sua forma ativa, T3 (triiodotironina). O T3 é o hormônio tireoidiano responsável pela maioria das ações metabólicas no corpo, e a deficiência de selênio pode comprometer a eficácia dessa conversão, resultando em níveis inadequados de T3 circulante.

Em pacientes com hipotireoidismo, a suplementação de selênio tem mostrado benefícios na melhoria dos sintomas e na otimização da função tireoidiana. Além da conversão de T4 para T3, o selênio também desempenha um papel na proteção da tireoide contra danos oxidativos, contribuindo para a integridade e longevidade das células tireoidianas.

As fontes alimentares ricas em selênio incluem castanhas do Brasil, peixes, carne de aves, ovos e grãos integrais. Integrar esses alimentos na dieta diária é fundamental para garantir uma ingestão adequada de selênio, contribuindo para a saúde da tireoide e a promoção do equilíbrio hormonal. 

Papel do Ferro na Tireoide

Além do iodo e do selênio, o ferro emerge como um componente essencial na abordagem nutricional do hipotireoidismo. Embora muitas vezes não seja o centro das discussões sobre a saúde da tireoide, o ferro desempenha um papel crucial na síntese dos hormônios tireoidianos e na função geral da glândula tireóide. 

A síntese desses hormônios requer a presença de ferro, a razão para isso é que a tireoide peroxidase é uma enzima heme glicosilada ferro-depedente. Portanto, a deficiência de ferro pode impactar negativamente a produção adequada desses hormônios, exacerbando os sintomas do hipotireoidismo.

Pacientes com hipotireoidismo, especialmente mulheres em idade fértil, podem ser mais propensos à deficiência de ferro devido a fatores como sangramento menstrual e menor absorção intestinal. A deficiência de ferro pode resultar em uma condição clínica como anemia ferropriva, que, quando associada ao hipotireoidismo, pode agravar a fadiga, um sintoma comum em ambas as condições.

A inclusão de fontes alimentares ricas em ferro na dieta é crucial para compensar a deficiência e promover a saúde da tireoide. Alimentos como carnes magras, aves, peixes, leguminosas, vegetais de folhas verdes escuras e grãos integrais são excelentes fontes de ferro. A vitamina C, presente em frutas cítricas e vegetais, pode melhorar a absorção de ferro não-heme, encontrado em alimentos de origem vegetal.

No entanto, a suplementação de ferro deve ser abordada com cautela, uma vez que o excesso de ferro pode ter efeitos adversos. Assim, é essencial determinar a necessidade de suplementação e a dosagem apropriada, evitando riscos de toxicidade.

Papel do Zinco na Tireoide 

O zinco é essencial para a atividade de mais 300 enzimas envolvidas no metabolismo, incluindo aquelas que participam na síntese e conversão dos hormônios tireoidianos. A deficiência de zinco pode impactar negativamente a função tireoidiana, comprometendo a síntese hormonal e potencialmente contribuindo para o agravamento dos sintomas do hipotireoidismo.

Além disso, ele é um componente dos receptores de T3, e sua  deficiência  impacta  negativamente  a  ligação hormonal, reduzindo as concentrações de T4 e T3 livres e a taxa metabólica dos hormônios,  enquanto que sua suplementação tem efeito oposto.

Devido às suas características antioxidantes e anti-inflamatórias, o zinco desempenha um papel crucial na defesa do sistema imunológico. Estudos apontam que quanto menor for a concentração sérica de zinco, maior será a concentração de anticorpos tireoidianos.

Níveis adequados de zinco são necessários para a modulação da resposta do organismo aos sinais que regulam a produção de hormônios tireoidianos. Portanto, a manutenção de níveis ótimos de zinco torna-se essencial para garantir uma regulação hormonal adequada e minimizar os efeitos adversos do hipotireoidismo.

As fontes alimentares ricas em zinco incluem carnes, aves, peixes, leguminosas, sementes de abóbora e nozes. Incorporar esses alimentos na dieta diária é crucial para garantir uma ingestão adequada de zinco, promovendo a saúde da tireoide e contribuindo para o equilíbrio hormonal. Deve-se avaliar a suplementação para a saúde da tireoide. 

Papel da Vitamina A na Tireoide

A vitamina A, conhecida por seu papel essencial no suporte à saúde ocular, também desempenha um papel significativo na função tireoidiana. Em uma abordagem nutricional para o hipotireoidismo, compreender a influência dessa vitamina torna-se fundamental para promover o equilíbrio hormonal e a saúde geral da tireoide.

A vitamina A é crucial para a síntese adequada dos hormônios tireoidianos T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina). Além disso, a vitamina A é essencial para a função do hormônio estimulante da tireoide (TSH), que controla a atividade da tireoide. Na hipófise, a deficiência de  vitamina A reduz a síntese de TSH.

Em pacientes com hipotireoidismo, a deficiência de vitamina A pode comprometer a eficácia da síntese hormonal, contribuindo para agravar os sintomas associados à disfunção tireoidiana. Além disso, a vitamina A desempenha um papel importante na regulação do sistema imunológico, auxiliando na prevenção de distúrbios autoimunes da tireoide, como a tireoidite de Hashimoto, uma causa comum de hipotireoidismo.

As fontes alimentares ricas em vitamina A incluem alimentos de origem animal, como fígado, ovos e laticínios, bem como vegetais de folhas verdes, cenouras e batatas doces. Integrar esses alimentos na dieta é essencial para garantir uma ingestão adequada de vitamina A e promover a saúde da tireoide.

Papel da Vitamina D na Tireoide 

A vitamina D, conhecida por seu papel crucial na saúde óssea e na regulação do metabolismo do cálcio, também desempenha um papel significativo na função tireoidiana. Na abordagem nutricional do hipotireoidismo, a compreensão da interação entre a vitamina D e a tireoide torna-se essencial para uma gestão eficaz e abrangente desta condição.

A vitamina D é reconhecida por sua influência na regulação do sistema imunológico, e a tireoide não é exceção. Ela desempenha um papel modulador na resposta imune, o que é particularmente relevante em distúrbios autoimunes da tireoide, como a tireoidite de Hashimoto, uma das principais causas de hipotireoidismo. A deficiência de vitamina D pode aumentar a suscetibilidade a essas condições autoimunes, exacerbando os sintomas do hipotireoidismo.

As fontes naturais de vitamina D incluem a exposição solar, alimentos como peixes gordurosos, gema de ovo e cogumelos. A suplementação pode ser recomendada, especialmente em regiões com baixa exposição solar ou em casos de deficiência diagnosticada.

A abordagem nutricional para o hipotireoidismo deve considerar a vitamina D como um componente integral. A exposição solar adequada, a incorporação de alimentos ricos em vitamina D na dieta e, quando necessário, a suplementação controlada são estratégias que visam otimizar não apenas a saúde da tireoide, mas também a resposta imunológica e o equilíbrio hormonal.

Goitrogênicos na Alimentação:

Certos alimentos, conhecidos como goitrogênicos, podem interferir na função tireoidiana quando consumidos em excesso. Exemplos incluem vegetais crucíferos como repolho, brócolis e couve-flor. Embora esses alimentos sejam saudáveis, é aconselhável cozinhá-los para reduzir seu impacto na tireoide. Além disso, a moderação no consumo de produtos de soja é recomendada, pois eles podem conter isoflavonas que prejudicam a absorção de hormônios tireoidianos.

Em conclusão, a abordagem nutricional ao paciente com hipotireoidismo é uma parte essencial do tratamento global dessa condição. A atenção a nutrientes específicos e o gerenciamento de goitrogênicos, o equilíbrio hormonal através da dieta contribuem para otimizar a saúde tireoidiana e melhorar a qualidade de vida. É crucial ressaltar que cada indivíduo é único, e a abordagem nutricional deve ser personalizada de acordo com as necessidades específicas de cada paciente.

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Referência Bibliográfica:  

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