Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas complexas, caracterizadas por alterações importantes no comportamento alimentar, na relação com a comida e, em muitos casos, na percepção do peso e da imagem corporal. Embora possam ocorrer em qualquer fase da vida, apresentam início frequente durante a adolescência e o início da vida adulta.
Para o nutricionista, reconhecer alterações no comportamento alimentar é fundamental, mas a atuação clínica não deve se limitar à elaboração de um plano alimentar. O tratamento dos transtornos alimentares exige uma abordagem especializada e multidisciplinar, envolvendo, conforme a necessidade, profissionais de Nutrição, saúde mental, medicina e outros integrantes da equipe assistencial.
Quais são os principais transtornos alimentares?
1- Anorexia nervosa
A anorexia nervosa caracteriza-se pela restrição persistente da ingestão energética, levando a peso corporal significativamente baixo, associada ao medo intenso de ganhar peso ou engordar e a alterações na percepção do peso ou da forma corporal.
Na avaliação clínica, também devem ser investigados comportamentos restritivos, eliminação de grupos alimentares, alterações recentes do peso e a presença de comportamentos compensatórios.
A condição pode provocar importantes repercussões metabólicas e fisiológicas. Entre elas, destacam-se alterações da densidade mineral óssea, comprometimento do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal e outras alterações neuroendócrinas associadas à privação energética.
2- Bulimia nervosa
A bulimia nervosa envolve episódios recorrentes de compulsão alimentar acompanhados por comportamentos compensatórios inadequados, como vômitos autoinduzidos, jejum, atividade física excessiva e uso inadequado de laxantes ou diuréticos.
Um ponto importante para a prática clínica é que pessoas com bulimia nervosa podem apresentar peso dentro da faixa considerada normal ou até sobrepeso, o que pode dificultar o reconhecimento do transtorno.
3- Transtorno da compulsão alimentar (TCA)
O transtorno da compulsão alimentar (TCA) é caracterizado por episódios recorrentes de compulsão, associados a sofrimento significativo e ausência de comportamentos compensatórios inadequados.
O TCA pode estar presente tanto em indivíduos com peso normal quanto naqueles com sobrepeso ou obesidade. Além disso, apresenta associação com condições como hipertensão, diabetes, dislipidemias e comorbidades psiquiátricas.
Essa relação reforça um ponto essencial para o nutricionista: peso corporal isoladamente não é suficiente para identificar ou excluir um transtorno alimentar.
4- Transtorno alimentar restritivo evitativo (TARE)
O TARE envolve restrição ou evitação alimentar que pode estar relacionada à falta de interesse pelos alimentos, às características sensoriais ou ao medo das consequências negativas de comer, como engasgar, vomitar ou passar mal.
Na prática nutricional, a identificação dos alimentos evitados e a reintrodução gradual e contínua desses alimentos podem fazer parte da abordagem terapêutica, em conjunto com a equipe responsável pelo tratamento.
Conduta nutricional: o que priorizar na prática?
O tratamento nutricional deve ser individualizado e integrado ao cuidado multiprofissional. Entre os objetivos estão atender às necessidades nutricionais de forma regular, equilibrada e sustentada, trabalhar pensamentos negativos e distorcidos sobre alimentação e corpo, modificar comportamentos alimentares desordenados, contribuir para o ganho ponderal quando necessário e favorecer a estabilização clínica e a recuperação nutricional.
Anorexia nervosa: priorize recuperação nutricional
Na anorexia nervosa, a prioridade é melhorar com segurança a ingestão energética e o peso corporal, além de auxiliar o paciente a reconhecer suas necessidades de energia e nutrientes.
Planos alimentares estruturados podem facilitar a tomada de decisões e favorecer a recuperação do peso. Conforme ocorre a evolução clínica, a terapia nutricional deve estimular maior flexibilidade na escolha dos alimentos e trabalhar os medos relacionados à alimentação.
Bulimia nervosa: reduza restrição e compensação
Na bulimia nervosa, o estabelecimento de um padrão alimentar regular é uma das prioridades. O planejamento de refeições e lanches ao longo do dia pode contribuir para reduzir oscilações de fome e saciedade e, consequentemente, o desejo de compulsão e purgação.
Também é importante desencorajar a restrição alimentar, pois ela pode estar associada à manutenção dos episódios de compulsão.
Transtorno da compulsão alimentar: evite estratégias centradas em perda de peso
No TCA, a intervenção deve buscar compreender os fatores relacionados à perda de controle alimentar, ao comer na ausência de fome e aos estímulos que desencadeiam os episódios.
Um ponto especialmente importante é evitar estratégias ativas de perda de peso enquanto os comportamentos de compulsão alimentar estiverem presentes.
Transtorno alimentar restritivo evitativo (TARE): trabalhe variedade e exposição alimentar
No TARE, os objetivos incluem recuperação do estado nutricional e do crescimento, além da redução da evitação alimentar.
A abordagem pode envolver a identificação dos alimentos evitados e sua reintrodução lenta e contínua, com participação dos responsáveis quando se trata de crianças e adolescentes.
Passo a passo para a consulta nutricional
Para organizar a conduta clínica, o nutricionista pode utilizar o seguinte roteiro:
- Identificar o comportamento alimentar: investigue restrição, compulsão, purgação, evitação e eliminação de grupos alimentares.
- Avaliar a relação com a comida e o corpo: explore pensamentos, medos, preocupações e comportamentos relacionados ao peso e à imagem corporal.
- Avaliar o estado nutricional: acompanhe evolução ponderal, a ingestão alimentar, crescimento e dados clínicos e laboratoriais disponíveis.
- Identificar sinais de gravidade: alterações cardiovasculares, hidroeletrolíticas, desidratação, baixo peso importante e comportamentos compensatórios descontrolados exigem atenção imediata.
- Definir metas individualizadas: estabeleça objetivos nutricionais compatíveis com o transtorno apresentado e com a fase do tratamento.
- Trabalhar progressivamente a flexibilidade alimentar: à medida que o paciente evolui, o tratamento deve se afastar gradualmente da rigidez característica dos transtornos alimentares e favorecer uma alimentação menos restritiva.
- Integrar a equipe multiprofissional: o acompanhamento deve ocorrer em articulação com profissionais de saúde mental e equipe médica, conforme as necessidades do caso.
A importância da abordagem multiprofissional
Os transtornos alimentares apresentam elevada frequência de comorbidades psiquiátricas e clínicas. Entre as condições associadas estão transtornos de humor e ansiedade, abuso de álcool e substâncias, obesidade, diabetes e síndrome metabólica.
A relação entre transtornos alimentares e doenças metabólicas também pode ser bidirecional. Pessoas com sobrepeso ou obesidade podem apresentar maior risco de determinados transtornos, enquanto indivíduos com TCA apresentam maior frequência de obesidade e alterações metabólicas.
Por isso, o tratamento não deve ser reduzido à mudança do peso corporal. A atuação nutricional precisa considerar o comportamento alimentar, o estado nutricional, as repercussões clínicas e os aspectos psicológicos envolvidos.
Em conclusão, a conduta nutricional nos transtornos alimentares exige conhecimento técnico, escuta qualificada e atuação integrada. O nutricionista desempenha papel fundamental na recuperação nutricional, na organização da alimentação, na redução de comportamentos alimentares disfuncionais e na ampliação progressiva da flexibilidade alimentar.
A avaliação deve ultrapassar o recordatório alimentar e o peso corporal, investigando a relação do paciente com a comida, comportamentos compensatórios, restrições, histórico ponderal, repertório alimentar e possíveis sinais de gravidade.
Além disso, o reconhecimento precoce é essencial. Os transtornos alimentares podem apresentar complicações físicas e psicológicas importantes, e o tratamento requer acompanhamento especializado e, frequentemente, uma equipe multidisciplinar.
Para o nutricionista, portanto, a principal competência não é apenas saber o que prescrever, mas compreender quando, como e dentro de quais limites a intervenção nutricional deve ser realizada, sempre considerando a segurança clínica e os objetivos globais do tratamento.
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Revisão: Daniella Feiferis



