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Desafios do Tratamento Oncológico no Contexto de Diabetes Mellitus

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Sumário

Desafios do Tratamento Oncológico no Contexto de Diabetes Mellitus

O câncer e o diabetes mellitus são complexos problemas de saúde pública, visto que ambos estão entre as principais causas de morte no mundo. Com o aumento da incidência global de doenças crônicas, o curso simultâneo de neoplasias malignas com o diabetes mellitus é cada vez mais frequente. Hoje, cerca de 8 a 18% dos pacientes com câncer também são diabéticos.

A relação entre o câncer e o diabetes ainda é pouco esclarecida na literatura, porém segundo a Associação Americana de Diabetes, os pacientes portadores de diabetes mellitus tipo 2 possuem risco aumentado para o desenvolvimento de câncer no fígado, pâncreas, cólon, mama e bexiga. Além disso, reconhece-se que tanto o câncer quanto o diabetes mellitus tipo 2 compartilham de fatores de riscos comuns, como:

  • Idade avançada
  • Obesidade e adiposidade visceral
  • Sedentarismo
  • Tabagismo
  • Alcoolismo
  • Dieta não saudável

Embora a carcinogênese seja um processo complexo e multifatorial, evidências recentes sugerem que o diabetes pode influenciar o processo neoplásico por vários mecanismos, incluindo:

Hiperglicemia: Níveis elevados de glicose podem atuar como fonte de combustível para alguns tipos de células cancerígenas, uma vez que a glicose se torna o principal substrato energético (efeito Warburg), o que pode contribuir com o aumento da proliferação de células malignas.

Hiperinsulinemia: Níveis elevados de insulina podem aumentar a expressão do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), visto que o mesmo exerce efeito direto na proliferação e na diferenciação celular, possuindo assim, um papel relevante na carcinogênese.

Inflamação crônica: Condições de baixo controle metabólico, aumentam o estresse oxidativo e causam uma condição pró-inflamatória. Esse estado pró-inflamatório crônico reduz a capacidade antioxidante intracelular, predispondo as células ao dano direto do DNA e redução dos mecanismos de reparo.

Sabe-se que o câncer e o diabetes mellitus isoladamente causam grande impacto na qualidade e na expectativa de vida de um indivíduo, porém com o diagnóstico concomitante pode ser ainda mais desafiador. Neste blog abordaremos sobre os desafios do manejo do diabetes mellitus durante o tratamento oncológico.

Tratamento oncológico e os desafios no manejo do Diabetes


O diabetes mellitus tem um impacto negativo no tratamento de pacientes com câncer, por uma série de peculiaridades inerentes à doença. Em função disso, os pacientes oncológicos portadores de diabetes podem apresentar desafios únicos durante o tratamento antineoplásico, como: presença de complicações clínicas preexistentes, dificuldades no controle glicêmico com uso de glicocorticóides e terapia enteral ou parenteral, efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia e recuperação no pós-cirúrgico.

Complicações Clínicas Preexistentes

Pacientes diabéticos de longo prazo e não tratados adequadamente podem apresentar complicações renais, cardíacas e neurológicas no momento do diagnóstico do câncer. Tais complicações afetam o tratamento antineoplásico, pela necessidade utilização de doses menores de quimioterápicos, bem como a limitação de protocolos de tratamento e impossibilitando o uso de tratamentos combinados, o que pode comprometer os resultados, diminuindo não apenas a taxa de resposta, mas também a sobrevida desses pacientes.

Protocolos Contendo Glicocorticóides 

Os glicocorticóides são rotineiramente usados em muitos protocolos de tratamento de câncer junto à quimioterapia, para prevenir náuseas e alergias, porém costumam elevar os níveis de glicose no sangue, através do aumento da resistência à insulina, gliconeogênese, glicogenólise e diminuição da produção e secreção de insulina. Dessa forma, todos os pacientes devem ser rastreados para diabetes antes de iniciar a terapia com glicocorticóides e monitorados a partir de então.

Uso de Terapia Nutricional Enteral ou Parenteral

A nutrição enteral ou parenteral são frequentemente usadas no tratamento antineoplásico em pacientes que não conseguem alcançar as necessidades nutricionais recomendadas, a fim de complementar ou substituir a alimentação via ingestão oral, considerando fatores como inapetência, comum entre os pacientes oncológicos internados, e a funcionalidade do trato gastrointestinal. Contudo, a hiperglicemia é uma complicação frequente de ambas as formas de nutrição, o que pode levar à um quadro de desidratação, cetoacidose diabética ou estado hiperglicêmico hiperosmolar se não tratada.

Efeitos Colaterais da Quimioterapia e da Radioterapia

Os efeitos colaterais são comumentes relatados durante o tratamento antineoplásico, principalmente os relacionados ao trato gastrointestinal, como, náuseas, vômitos, diarreia, mucosite e úlceras orais, perda de apetite e disgeusia. Dessa forma, além de causar grande desconforto ao paciente, os efeitos colaterais podem prejudicar o consumo alimentar, dificultando assim, o controle glicêmico e o alcance de necessidades nutricionais, que afetam diretamente o estado nutricional desse paciente.

Tratamento Cirúrgico e Recuperação no Pós-cirúrgico

Atualmente, o tratamento cirúrgico é considerado um dos tripés para o tratamento do câncer, ao lado da quimioterapia e da radioterapia, porém pacientes diabéticos apresentam cicatrização deficiente, por causa das lesões vasculares e das alterações nas células fagocitárias, favorecendo a instalação de infecções. Em razão disso, pacientes portadores de diabetes possuem a maior taxa de complicações pós-cirúrgico e risco aumentado de infecções, assim como, a recuperação também tende ser mais lenta, quando comparado com pacientes não diabéticos.

O tratamento oncológico no contexto de diabetes mellitus representam um grande desafio tanto para o paciente quanto para equipe multidisciplinar, pela complexidade de ambas as doenças. Dessa forma, o profissional Nutricionista tem papel importante nesse cenário, não apenas pelo suporte necessário para alimentação adequada com objetivo de preservar o estado nutricional do paciente oncológico e minimizar os efeitos colaterais da terapia antineoplásica, mas também no manejo da glicemia, com o intuito de prevenir e reduzir a manifestação de complicações clínicas relacionadas ao diabetes.

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Bibliografia Consultada:

BRASIL. Ministério da Saúde. Consenso nacional de nutrição oncológica. / Instituto Nacional de Câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2015.

GIOVANNUCCI, Edward et al. Diabetes and cancer: a consensus report. CA: a cancer journal for clinicians, v. 60, n. 4, p. 207-221, 2010.

HARDING, Jessica L. et al. Cancer risk among people with type 1 and type 2 diabetes: disentangling true associations, detection bias, and reverse causation. Diabetes care, v. 38, n. 2, p. 264-270, 2015.

JEMAL, Ahmedin et al. Global cancer statistics. CA: a cancer journal for clinicians, v. 61, n. 2, p. 69-90, 2011.

PSARAKIS, Helen M. Clinical challenges in caring for patients with diabetes and cancer. Diabetes Spectrum, v. 19, n. 3, p. 157-162, 2006.

RYU, Tae Young; PARK, Jiyoung; SCHERER, Philipp E. Hyperglycemia as a risk factor for cancer progression. Diabetes & metabolism journal, v. 38, n. 5, p. 330-336, 2014.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (2017-2018). 2017.

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